Total de visualizações de página

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire

XCIII - A uma passante

A ensurdecedora rua em torno uivava.
Longa, esbelta, enlutada, uma dor majestosa,
Passava uma mulher, que com a mão faustosa,
O festão e a bainha erguia e balançava,

Ágil e nobre, com a perna escultural.
Eu sorvia, crispando como um beberrão,
Em seu olhar, céu lívido de furacão,
O dulçor que fascina e o prazer mortal.

Um raio...a noite cai! - Fugitiva beldade
Cujo olhar me causou um renascer dos dias,
Não te vereis jamais, senão na eternidade?

Alhures, não aqui! Tarde! Talvez jamais!
Pois não sabes de mim, eu não sei aonde vais,
Ó tu que eu amaria, ó tu que o sabias!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

sábado, 15 de abril de 2017

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire.

XCII - Os cegos

Contemplai-os, minha alma; são mesmo horrorosos!
Iguais aos manequins; vagamente risíveis;
Singulares tais como sonâmbulos, terríveis;
Dardejam não sei onde os globos tenebrosos.

Seus olhos, de onde foi-se a faísca divina,
Como se olhassem longe, ficam levantados
Ao céu, nunca se veem, para o chão voltados,
Pender a sonhadora face que se inclina.

Atravessam assim o escuro ilimitado,
Esse irmão do silêncio eterno. Ó urbe!
Enquanto em torno a nós tu muges, ris e cantas,

Sedenta do prazer até a atrocidade,
Vê! Assim eu me arrasto! E, mais que eles toldado,
Digo: O que no céu buscam tantos cegos, tantos?

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire.

XCI - As velhinhas

A Victor Hugo

I

Nas sinuosas pregas, velhas capitais,
Onde tudo, até horrores, ficam fascinantes,
Espreito, obediente aos humores fatais,
Uns seres singulares, caducos, tocantes.

Esses monstros disformes já foram mulheres,
Eponina¹ ou Laís! Monstros tortos, corcundas
Alquebrados, amemo-los! pois esses seres
São almas sob as saias rotas, frias e imundas

Rastejam, flagelados por beijos iníquos,
Tremendo pelos ruídos ensurdecedores
Dos carros e apertando qual fossem relíquias,
Um saquinho bordado com fitas e flores;

Eles trotam assim como marionetes;
Arrastam-se assim como animais feridos,
Ou dançam, sem querer dançar, pobres joguetes
Onde um Diabo se enforca sem dó! Combalidos

Embora, têm agudos olhos de gavinha,
Luzentes como furos onde a água dormita;
Têm os olhos divinos de uma menininha
Que se admira e que ri com tudo que reflita.

- Observastes que muitos esquifes de velhas
São quase tão pequenos como os de um infante?
A Morte sábia põe nessas covas parelhas
Um símbolo de um gosto estranho e cativante,

E quando eu entrevejo um fantasma assim débil
Cruzando de Paris esse quadro fremente,
Parece que estou vendo que esse ente flébil
Vai-se indo devagar ao berço novamente;

A menos que, pensando sobre a geometria,
Eu busque, pelo aspecto dos membros discordes,
Quantas vezes se faz mister que, à porfia,
Mude o artesão a forma da caixa pra os corpos.

- Esses olhos são poços de milhões de prantos,
Cadinhos que um metal já frio palhetou...
Olhos misteriosos de invictos encantos
Para quem o Infortúnio austero amamentou!

II

De Frascati² defunto, Vestal³ namorada;
Acólita de Tália4, de que o apontador
Apenas sabe o nome; ó suave evaporada
A quem Tivoli outrora ensombrou em sua flor,

Embriagam-me todas; mas seres fugazes,
Há as que, mudando a dor em verdadeiro mel,
Disseram ao Desvelo que lhes dava asas:
Hipogrifo5 possante, leva-me até o céu!

Uma, por sua pátria em desdita provada,
Outra, que seu esposo carregou de dores,
Outra, por filho seu Madona trespassada,
Todas fariam rios de pranto e dissabores.

III

Ah! quantas eu segui dessas pequenas velhas!
Uma, entre outras, na hora em que o sol no ocaso
Cobre de sangue o céu com feridas vermelhas,
Pensativa, sentava, num banco, ao acaso,

Para ouvir um concerto, dos ricos em cobre,
Com que os soldados praças invadindo vão,
E que a tarde de ouro faz que a vida dobre,
Lançam certo heroísmo em cada cidadão.

Aquela, ereta ainda, altiva e no compasso,
Hauria avidamente do canto os tesouros;
Abriam-se os seus olhos como águia no espaço;
E sua marmórea fronte era feita pra os louros!

IV

Assim ides, estoicas e sem queixas tantas,
Através desse caos das cidades viventes,
Mães, coração sangrando, cortesãs ou santas,
Cujos nomes outrora ouviam-se frequentes,

Vós que fostes a graça ou que fostes a glória,
Ninguém vos reconhece! Um bêbado incivil
Insulta-vos passando de amor derrisório
Saltando aos calcanhares um moleque vil.

Pejadas de existir, sombras encarquilhadas,
Medrosas, recurvadas, vós beirais os muros;
E ninguém vos saúda, estranhas malfadadas!
Cacos de humanidade ao eterno maduros!

Vejo desabrochar os amores noviços.
Brilhantes ou sombrios, vi os perdidos dias;
Meu coração plural goza dos vossos vícios!
A minha alma resplende em vossas simpatias!

Ruínas! Familiares! Mentes irmãs, gregárias!
Dou-vos a cada noite o mais solene adeus!
Amanhã estarei onde, Evas octogenária,
Sobre quem pesa a garra espantosa de Deus?

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Eponina é uma heroína gaulesa - símbolo de bravura e fidelidade conjulgal -, que protegeu o marido, que estava sendo perseguido por se rebelar contra o domínio romano na Gália. Quando ele foi descoberto e condenado à morte pelo imperador Vespasiano, Eponina suplicou a ele que também a executassem. (N. do E.)
²O Terraço de Frascati, localizado na esquina da rua Richelieu, no Boulevard Montmartre, era um elegante estabelecimento da moda, que encerrou suas atividades em 1836. (N. do E.)
³As Vestais eram as sacerdotisas - obrigatoriamente virgens e patrícias - que se consagraram ao culto da deusa romana Vesta. (N. do E.)
4Filha de Zeus e Mnemósine, Tália é uma das noves musas gregas - a musa da Comédia. (N. do E.)
5Hipogrifo é um animal mitológico grego, metade cavalo, metade grifo (outro animal imaginário, com cabeça de água e garras de leão). (N. do E.)

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire

XC - Os sete anciãos

A Victor Hugo

Formigante cidade, cidade em sonhos plena,
Onde o espectro, dia pleno, agarra o passante!
Os mistérios aqui como seiva se drena
Nos estreitos canais do colosso possante.

Uma manhã, no entanto, em que, na rua feia,
As casas, a que a bruma tornava maiores,
Simulavam os dois cais de um rio na cheia,
E que, cenário igual á alma dos atores,

Névoa amarela e suja enchia todo o espaço,
E seguia, de nervos tensos, qual valente,
E discutindo como o espírito já lasso,
O bairro por carroças pesadas tremente,

De repente, um ancião, de andrajos amarelos,
Que imitava a cor feia de manhã como essa,
Seu aspecto faria chover dinheiros belos,
Não fosse essa maldade em seus olhos impressa,

Me apareceu. Pupila, dir-se-ia, banhada
No fel; o olhar tornava as friagens agudas,
E a barba, longos pelos, rija como espada,
Projetava-se, assim como aquela de Judas.

Ele não era arcado, e sim quebrado, a espinha
Fazendo com a perna um ângulo bem reto,
Tanto que seu bastão fechar seu quadro vinha,
Dando-lhe certo jeito e o andar incorreto

De um quadrúpede fraco ou judeu¹ de três patas,
Na neve e no barreiro afundando ia à frente
Como se ele esmagara mortos com as sapatas,
Hostil ao universo mais que indiferente.

Seu igual vinha atrás: barba, olho, bastão, trapos,
Nada pra os distinguir, de inferno igual saído,
O gêmeo secular, e os barrocos andrajos,
Andando ao mesmo passo pra um fim não sabido.

A que conchavo infama eu submetido estava,
Ou assim me humilhava que pérfido azar?
Setes vezes, então, por minuto eu contava,
O sinistro ancião a se multiplicar.

Que aquele que se ri de minha inquietude,
E que não é tomado de arrepio fraterno,
Pense bem, que apesar dessa decrepitude
Os sete monstros feios tinham ar eterno!

Teria eu, sem morrer, visto mesmo o que vi,
Inexorável sósia, irônico e fatal,
Tão repugnante Fênix², filho e pai de si?
- Mas eu dei logo as costas à corte infernal.

Exasperado como ébrio que vê dobrado,
Entrei, fechei a porta, em medo que me invade,
Doente e resfriado, mente febril, cansado,
Ferido do mistério e da absurdidade!

Em vão tentou tomar o meu leme a razão;
A borrasca a jogar fazia do esforço um nada,
E minha alma a dançar, a dançar, qual jangada
Sem mastros, sobre o mar, monstruosa imensidão!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹O Judeu Errante, ou Ahsverus, é o personagem da tradição oral cristã que, por ter-se recusado a ajudar Jesus em seu caminho para o Calvário, foi condenado a vagar pelo mundo até o fim dos tempos. (N. do E.)
²Fênix é a ave fabulosa da Grécia antiga que, ao morrer, entrava em combustão, renascendo em seguida das próprias cinzas. (N. do E.)

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire

LXXXIX - O cisne

A Victor Hugo

I

Andrômaca¹, em vós penso! Esse rio de água turva
Desse simples espelho onde já resplendeu
A imensa majestade da dor de viúva,
O Simeonte mendaz que dos prantos se encheu,

Súbito fecundou minha fértil memória,
Quando eu atravessava o novo Carrossel²,
A antiga Paris já não há (pois a história
Da cidade muda antes que a alma de um mortal);

Em espírito vejo esse campo de tendas,
Tantas colunas, tantos capitéis pintados
Os matos, grandes blocos, poças verdoengas,
E, brilhando no chão, objetos espalhados.

Por ali se espalhava outrora um galinheiro;
Ali eu vi, um dia, na hora em que no céu
Frio e claro o Trabalho desperta, e em que o cheiro
Do lixo enche o ar como sombrio véu,

Um cisne que escapara de seu cativeiro
E, com os pés palmados esfregava no chão
Sua branca plumagem, chegou a um ribeiro
Cujo leito era seco, e, abrindo o bico, então,

Na poeira aflitamente as asas a banhar,
E dizia, saudoso do lago natal:
"Água, vais chover quando? Raio, vais troar?".
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,

Como o homem de Ovídio², pra o céu arremessa,
Para o irônico céu azul na vastidão,
No colo convulsivo dando a ávida cabeça,
Como se a Deus lançasse sua reprovação!

II

Paris muda! Mas nada na melancolia
Se alterou! Paços novos, andaimes e obras,
Velhos bairros, pra mim é tudo alegoria,
E as recordações pesam mais do que rochas.

Assim, diante do Louvre, uma imagem me oprime:
Penso no grande cisne e seus gestos sem jeito,
Tal como os exilados, grotesco e sublime,
E roído de anseio sem trégua! Então feito

Andrômaca, dos braços do esposo caída,
Besta vil, sob a mão de Pirro, nada ameno,
Ao lado de uma tumba vazia estendida;
Viúva de Heitor, oh! e mulher de Heleno!

Fico a pensar na negra, emagrecida e flácida,
Patinando na lama e a buscar, louco olhar,
Os coqueiros ausentes da soberba África
Por detrás da muralha branca e secular,

A quem quer que perdeu o que jamais se encontra,
Nunca, nunca! Pra quem só bebe dissabores
E vão mamar na Dor como uma boa loba4!
Aos magérrimos órfãos a secar quais flores!

Assim na mata em que a minha alma se asila
Uma velha lembrança soa qual clarim!
Eu penso nos marujos perdidos numa ilha,
Nos cativos, vencidos!...e outros mais assim!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Andrômaca é a viúva de Heitor, o príncipe troiano morto por Aquiles na Guerra de Troia. (N. do E.)
²Alusão às reformas urbanas determinadas por Napoleão III e empreendidas pelo Barão Haussmann ("o artista demolidor") entre 1853 e 1870. (N. do E.)
³Públio Ovídio Naso (43 a.C. -17 d. C.), poeta romano, autor de As metamorfoses, obra que foi traduzida por Baudelaire. (N. do E.)
4A boa loba amamentou os gêmeos Rômulo e Remo, heróis fundadores de Roma, segundo a tradição. (N. do E.)

terça-feira, 11 de abril de 2017

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire

LXXXVIII - A uma mendiga ruiva

Alva moça, de ruivos cachos,
Cujo vestido por seus rasgos
Expõe as marcas da pobreza
E tua beleza.

Pra mim, poeta indigente,
Teu jovem corpo doente,
Cheio de sardas escuras,
Tem suas doçuras.

Portas com maior distinção
Que uma rainha de ficção
O seu coturno aveludado
Rude calçado.

Ao invés de um farrapo curto
Que um nobre hábito da corte
Arrasta em suas pregas talares,
Nos calcanhares;

Em vez de umas meias furadas,
Que para as vistas mais ousadas
Em tua perna punhal doura,
Reluza agora;

Que nós não tão bem amarrados
Desvendem aos nossos pecados
Teus belos seios a brilhar
Qual teu olhar;

Que com fim de te desnudar
Deixem-se os teus braços rogar
E rechacem sempre ligeiros
Dedos matreiros,

Pérolas da água mais bela e clara,
De mestre Belleau¹ as rimas raras,
Pelos teus fãs posto em prisão,
Mas sempre á mão,

Criadagem de rimadores
Que te dedica os seus primores
E o teu sapato embaixo espia
De escadaria.

Muito pajem amante do azar,
Muito nobre e muito Ronsard²
Espiariam pelo prazer
Teu fresco ser!

Tu contarias nos teus leitos
Mais do que lírios muitos beijos
E sob tuas leis terias já
Mais de um Valois!³

- Entretanto vais mendigando
Refeição velha sobrando
Na soleira de algum Véfour4
De carrefour;

Vais espiando nos desvãos
As joias de vinte tostões
De que não posso, oh! Perdão!
Fazer-te dom.

Vai, pois, sem outro adereço,
Perfume ou joia de alto preço,
Senão tua magra nudeza,
Minha beleza!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Remy Belleau (1528-1577), poeta do Renascimento francês e participante do grupo La Pléiade. (N. do E.)
²Pierre de Ronsard (1524-1585), o principal representante do grupo Lá Pléiade. (N. do E.)
³A Casa de Valois é um ramo da dinastia capetíngia, que se inicia em 1328 e se extingue em 1589. (N. do E.)
4Véfour é um restaurante que existe desde o século XVIII, no Palais-Royal, em Paris. (N. do E.)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quadros Parisienses - Charles Baudelaire

LXXXVII - O sol

Pela velha avenida, onde pende aos tugúrios
Muita persiana, abrigo de atos espúrios,
Quando esse sol cruel bate em raios fatais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Exerço-me sozinho a fantástica esgrima,
Cheirando em todo canto os acasos da rima,
Tropeçando em palavras como em chão calçado,
Chocando muita vez em verso já sonhado.

Esse pai provedor, arredio a cloroses,
Desperta pelo campo os vermes como rosas;
E faz evaporar para o alto céu cuidados,
As mentes e os favos de mel torna recheados.
Ele é quem revigora o que anda de muletas
E os torna, quais meninas, tão doces e ledas,
Faz a messe crescer e logo estar madura
No coração mortal que só florir procura!

Quando, como um poeta, ele às cidades chega,
Torna mais nobre a sorte das coisas mais piegas,
E introduz-se qual rei sem valete ou rumor,
Nos hospitais e nos palácios de esplendor.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.